O Desenvolvimento da Consciência

O Desenvolvimento da Criança

“Como o leite, que ajuda a formar e fortalecer os seus ossos, o amor é a proteína de formação do ego infantil. A deficiência de leite na alimentação pode causar problemas como o raquitismo. Da mesma forma, a falta de amor pode provocar deformações na vida psíquica.” (Byington)

“E se é verdade que nosso conhecimento foi adquirido antes de nosso nascimento, e que o perdemos no momento em que viemos ao mundo, mas que, posteriormente, mediante o exercício de nossos sentidos sobre objetos sensíveis, recuperamos o conhecimento de que antes dispúnhamos, supondo que aquilo a que damos o nome de aprendizagem se caracteriza como a recuperação de nosso próprio conhecimento... (Platão)


Antes de falar sobre o desenvolvimento infantil dentro da abordagem junguiana gostaria de fazer um breve comentário sobre a minha visão deste universo chamado criança, no dicionário Aurélio criança quer dizer ser humano de pouca idade, pessoa ingênua, estes aspectos são reais, bem como sua espontaneidade, alegria, raiva, pureza, conflitos entre tantas outras características emocionais, mas não pára por ai, junto com desenvolvimento da vida emocional, o corpo da criança também se encontra em franca expansão através das células, troncos, músculos, órgãos, vísceras, crânio, ossos. Ser criança e viver um período de descobertas, experiências doces e amargas, de realidades internas e externas, físicas e emocionais, educacionais, sociais etc. Refletindo sobre as locações de Platão as crianças também fazem permanentes esforços para recuperar o conhecimento adquirido antes mesmo do seu nascimento.


Os estados de desenvolvimento para criança

Para Jung (2002) “criança” significa algo que se desenvolve rumo à autonomia. Ela não pode torna-se sem desligar-se da origem: o abandono é, pois uma condição necessária, não apenas um fenômeno secundário. O conflito não é superado, portanto pelo fato de a consciência ficar presa aos opostos; por esse motivo, necessita um símbolo que lhe mostre a exigência do desligamento da origem. Na medida em que o símbolo da “criança” fascina e se apodera do inconsciente, seu efeito redentor passa á consciência e realiza a saída da situação de conflito, de que a consciência não era capaz. O símbolo é a antecipação de um estado nascente de consciência. Enquanto este estado não se estabelece, a “criança” permanece uma projeção mitológica que exige uma repetição pelo culto e uma renovação ritual.

Para a criança, fica difícil se desenvolver rumo a sua autonomia sem desligar-se da sua origem, ou seja, características que se encontra ainda muito inconsciente. O abandono é uma condição necessária no conflito dela tornar-se uma pessoa e desligar-se das origens. Através das experiências de vida inclusive com o pai a criança começa a vivenciar o símbolo. Como o símbolo aqui apresentado é uma antecipação de um estado nascente de consciência, torna-se imprescindível o contato da criança com o símbolo, caso este estado de consciência não aconteça à criança permanecerá presa a projeção mitológica conforme mencionado por Jung.

Para escrever sobre o desenvolvimento da criança se faz necessário refletir sobre o ego e o Self (Si - mesmo), na abordagem junguiana.

Para Edinger (1985) O Si-mesmo é o centro ordenador e unificador da psique total (consciente e inconsciente), assim como o ego é a sede da identidade subjetiva, ao passo que o Si-mesmo constitui, por conseguinte, a autoridade psíquica suprema, mantendo o ego submetido ao seu domínio. O Si-mesmo é descrito de forma mais simples como a divindade empírica interna, e equivale á imago Dei... Como há dois centros autônomos do ser psíquico, o vínculo existente entre eles assume importância capital. A relação entre o ego e o si mesmo é altamente problemática e corresponde, de maneira aproximada, á relação entre o homem e seu criador, tal como é descrita na mítica religiosa. O mito pode ser visto, na verdade, como expressão simbólica da relação entre ego e o Si - mesmo.

Como já foi apresentado no capitulo anterior, o complexo do ego e a consciência já se apresentam em germe, no inconsciente, como possibilidades inatas, indicando um movimento arquetípico humano do Caos primordial para a luz, para uma percepção mais clara de si e do mundo, Faria (2003). Embora a criança nasça com o germe do ego e consciência, no inconsciente, nos primeiros anos de vida da criança o Si – mesmo e a autoridade psíquica suprema, podendo manter o ego submetido ao seu domínio (Edinger), ou seja, enquanto o ego e a consciência da criança não se fortalecer ou estruturar ela não terá autonomia para discriminar o divino e o humano, dentro e fora, a dor e alegria.

Através desses dois centros autônomos do ser psíquico, ego e o Si - mesmo o vinculo entre eles e vital para um desenvolvimento equilibrado, como apreendemos no Budismo se esticarmos muito a corda o violão ela quebra, se deixarmos elas frouxas demais não toca a musica da vida. Embora me pareça ideal demais colocar a reflexão acima para uma criança que vive nuanças exorbitantes entre o desenvolvimento do ego e a consciência, tenho a impressão que no decorrer da vida, talvez seja uma possibilidade de integração (ego e alma), compreender o bem e o mal como caminhos naturais da vida.

Caminhando ao encontro dos estágios de desenvolvimento Edinger (1985) escreve o seguinte;

De modo geral, os psicólogos analíticos admitem que a função da etapa que antecede a idade adulta envolve o desenvolvimento do ego, com a separação progressiva entre o ego e o Si – mesmo, ao passo que a idade adulta requer uma rendição – ou pelos uma relativização – do ego em sua experiência do Si-mesmo e na relação que mantém com este ultimo. A atual fórmula operacional é, portanto:

- Fase anterior á idade adulta > separação entre o ego e o Si-mesmo;
- Idade Adulta < reunião entre o ego e o Si-mesmo.

Esta fórmula, apesar de talvez ser verdadeira como generalização ampla, não leva em consideração muitas observações empíricas feitas na área da psicologia infantil e da psicoterapia de adultos.

Edinger (1985) propõem uma formula circular na qual a união entre o ego e Si-mesmo que representa um estado inflacionado e a separação entre o Ego e Si-mesmo que configura a alienação, que nesses dois centros possa ocorrer um processo de alternância entre eles. O processo de alternância entre a união ego- Si-mesmo e a separação ego- Si-mesmo parece ocorrer de forma continua ao longo da vida do individuo, tanto na infância quanto na maturidade. Na verdade, esta formula cíclica ( ou melhor, em forma espiral) parece exprimir o processo básico de desenvolvimento psicológico do nascimento a morte.

Para Edinger os estágios do desenvolvimento são três;
1- Inflação
2- Alienação
3- Individuação.

Começaremos pela inflação, Edinger (1985). Uso o termo inflação para descrever a atitude e o estado que acompanham a identificação do ego ao Si-mesmo. Trata-se de um estágio no qual algo pequeno (o ego) atribui a si qualidades de algo mais amplo (o Si-mesmo) e, portanto está alem das próprias medidas.

Nascemos num estado de inflação. Na mais tenra infância, não existe ego ou consciência. Tudo está contido no inconsciente. O ego latente encontra-se completamente identificado ao Si-mesmo. O Si-mesmo nasce, mas o ego é construído; e, no principio, tudo é Si-mesmo – Como o Si-mesmo é o centro e a totalidade do ser, o ego – totalmente identificado ao Si-mesmo – percebe-se como divindade. Em outro parágrafo Edinger segue;

A criança tem de si mesma uma experiência bem concreta de ser o centro do universo. A mãe, a princípio, responde a essa exigência; conseqüentemente; os relacionamentos iniciais tendem a encorajar a criança a pensar que seus desejos constituem uma ordem para o mundo – e é absolutamente necessário que assim seja. Se a dedicação total e constante da mãe á necessidade da criança não for experimentada, esta não poderá desenvolver- se psicologicamente.

Todavia, algum tempo depois, o mundo começa necessariamente a rejeitar as exigências feitas pela criança. Nesse ponto, a inflação original começa a se dissolver, mostrando-se insustentável diante da experiência.

Nesta visão a criança nasce conectada entre o ego e o Si – mesmo, sem a discriminação do que são os aspectos divinos e humanos, com a estruturação do ego através das vivencias boas e ruins, a criança tem a oportunidade de discriminar seu mundo interno e a realidade externa, ficando claro que nos primeiros anos de vida da criança, o amor maternal e essencial para a criança suportar a rejeição que a vida inevitavelmente impõe.

Com o ego identificado com o Si-mesmo, a descida do mundo celestial torna-se uma necessidade crucial para criança em outras palavras e chegado um momento que ala precisa partir dessa doce ilusão (ser apenas divina), a saída do paraíso torna-se imprescindível para seu crescimento, quando isto ocorre chegamos ao segundo estagio do desenvolvimento a alienação.

Passaremos agora a observar como funciona o ego alienado. Segundo
Edinger (1985) Embora e ego se inicie num estado de inflação decorrente da identificação com o Si-mesmo, essa condição não pode persistir. Os encontros com a realidade frustram as expectativas infladas e provocam um estranhamento entre o ego e o Si-mesmo. Este estranhamento e simbolizado por imagens como quedas, exílio, ferida sem cura, tortura perpétua. Evidentemente, quando essas imagens entram em jogo, o ego foi não só castigado, mas também ferido. Este ferimento pode ser mais bem compreendido como um dano infligido ao eixo ego – Si- mesmo - O eixo ego- Si-mesmo representa a conexão vital entre o ego e o Si-mesmo, a qual deve ficar relativamente intacta se pretende que o ego suporte as tensões e cresça. Esse eixo é uma passagem ou um canal de comunicação entre a personalidade consciente e a psique arquetípica. A danificação do eixo ego- Si-mesmo impede ou destrói a conexão entre consciente e inconsciente e provoca a alienação do ego com relação á sua origem e fundamento.

Podemos perceber que o estado de inflação leva criança a uma identificação do ego com Si-mesmo, já na alienação o ego irá experimentar uma separação do Si-mesmo imposto pela realidade externa, em outras palavras a criança começa seu processo de humanização, daí a importância dos pais para os filhos, sem a presença do pai e mãe o ego correria o risco de permanecer identifica apenas com o Si-mesmo. No entanto se neste período o criança experimenta vivencias muito extremadas, por exemplo: pais que espancam os filhos, os danos no eixo ego- Si-mesmo podem ser irreparáveis, causando prejuízos adversos e até mesmo uma cisão entre esse eixo.




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