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Ciúme Romântico em casais heterôgenos.

Ciúme Romântico em casais heterôgenos.

Enviado por: Sheila Gonzalez

Nos dias de hoje o ciúme se apresenta como mais uma dificuldade de relacionamento que a sociedade enfrenta, pois o ciúme é uma emoção humana difícil de se entender e como tal, tanto a sua ausência como a sua presença pode incomodar a pessoa a quem está sendo dirigido. Há quem o relacione com prova de amor. No entanto, muitos o condenam por possuir traços de absoluto controle e desconfiança (Pittman, 1994).
Busca-se então, estudar o ciúme analisando variáveis, tais como gênero, idade cronológica, tempo de relacionamento e estado civil de um grupo de pessoas que compõem a sociedade, com o intuito de mostrar que o ciúme está presente e muitas vezes não é percebido. A pesquisa em questão é embasada em uma fundamentação teórica que mostra as possíveis variáveis que possam vir a influenciar nas atitudes de um indivíduo frente ao ciúme.
O ciúme é uma emoção humana extremamente comum, que pode ser detectado em grande parte das culturas existentes a nível mundial (Ballone, 2002). O ciúme é um conjunto de pensamentos, emoções e ações, desencadeadas por alguma ameaça à estabilidade ou qualidade de um relacionamento. Assim sendo, busca-se encontrar um ponto de equilíbrio para esta emoção que é tão responsável e importante nas relações humanas envolvendo a sociedade de forma geral. Esta pesquisa está relacionada com o campo emocional que envolve casais em seus relacionamentos amorosos e, sendo assim, parece que o ciúme anda atrelado a várias questões como desconfiança, fidelidade, auto-estima, perda e abandono. (Pittman, 1994).
Em relação ao abandono, pode-se dizer que a pessoa teme ser abandonada pelo parceiro (a), pois algumas vezes existe a relação de dependência em relação ao outro. Neste sentido, para o ciumento (a) a existência de um rival, geralmente imaginário, poderá lhe trazer sérias conseqüências, pois perderia o (a) parceiro e ficaria sozinho, podendo ficar estagnado no tempo e fragilizado.
Quando se fala do medo da perda, esta pode estar relacionada ao companheirismo que existe entre os membros do casal; o ciumento (a) pode temer a perda do parceiro (a), pois esta situação lhe colocaria num estado de profunda solidão. Para o ciumento (a) este medo é bastante aparente e necessita de atenção constante, pois quando ele começa a senti-lo, pode entrar em um estado de vigilância em relação ao parceiro (a) ao qual teme perder.
O ciumento (a) teme perder seu parceiro (a) sexual quando este (a) o satisfaz em todos os aspectos da relação, pois se encontra em um estado de comodismo. Esta perda significaria ter de ir a busca de um novo relacionamento. Este medo é tão intenso que se torna difícil de se controlar. Algumas situações como grande diferença de idade de um dos membros do casal para o outro, situação econômica, beleza, projeção social e, quando existe uma maior atração de um dos parceiros em relação ao outro, podem intensificar alguns dos componentes do ciúme como desconfiança, medo, insegurança (Santos, 1998).
Como conseqüência disso, pode-se perceber que por mais que exista a monogamia em muitos relacionamentos, a possessão e a compulsão para o controle do parceiro tomam conta de muitos relacionamentos e geralmente um dos membros do casal perde a liberdade que todos procuram e precisam ter. Segundo a concepção de Pittman (1994), quando o casal sai para um ambiente em que haja outras pessoas, por exemplo, uma festa onde um se afasta do outro por algum momento, os membros do casal se procuram no ambiente de forma a se manterem unidos e sempre próximos um do outro, desenvolvendo segundo ele, uma relação de cuidado ou zelo passível de aceitação entre eles, pois é algo que não traz constrangimentos e nem afeta a relação. E, como conseqüência desse ato, o ciúme (cuidado e zelo) tende a aproximar o casal, ao passo que, se os membros do casal se procuram no ambiente do evento com o intuito de controle absoluto um sobre o outro, o relacionamento tende a se romper distanciando o casal por desconfiança.
Quando se atinge o âmbito da desconfiança pode-se definir dois lados: por um lado, há
a desconfiança pressuposta pelo ciúme e que tem origem na rivalidade; é a desconfiança acerca do adversário, que não é nada específica do ciúme, mas lhe é necessária. Por outro lado, há a desconfiança suscitada pelo ciúme, desconfiança acerca do ser amado de que se suspeita infidelidade, por exemplo. A desconfiança em relacionamentos amorosos quase sempre resulta no desejo de possessão exclusiva de um dos membros do casal pelo outro (Greimas, 1993).
Esta desconfiança que gera um sentimento de posse para o ciumento (a) em relação a pessoa amada, pode vir a apresentar casos em que o ciúme aparece de maneira intensa e problemática a ponto de influenciar negativamente no relacionamento. Neste caso deve-se tomar atitudes no sentido de procurar uma alternativa, como o diálogo entre os membros do casal, buscando evitar uma possível instalação de um quadro mais intenso, que se não for detectado em tempo, pode vir a se tornar algo nefasto (Cavalcante, 1997).
Buscando os pontos que podem vir a levar o casal a desenvolver o ciúme, percebe-se um fator relevante: a auto-estima. Pois, segundo Brandem (1982), dos fatores que são vitais para o sucesso do amor romântico, nenhum é mais importante do que a auto-estima.
O ciúme é tratado como uma resposta defensiva e protetora frente a ameaças à auto-estima e ao relacionamento, denotando, assim, uma impressionante sabedoria emocional. (Buss, 2001).
Pode-se dizer que, tratando-se de auto-estima, a primeira ligação amorosa que devemos consumar com sucesso é a ligação amorosa conosco mesmos. Só a partir daí estaremos prontos para outros relacionamentos amorosos, pois nos dias de hoje é comum ouvirmos dizer que se não amamos a nós mesmos, não conseguiremos amar ninguém (Brandem, 1982). Isto se explica pelo fato de que se um indivíduo não sente amor por si, este estará fechado em uma redoma, concluindo que ninguém o poderá amá-lo, e neste caso, por mais que o parceiro (a) tente demonstrar o amor que sente, o indivíduo jamais acreditará que está realmente sendo amado.
Muitas pessoas procuram elevar sua auto-estima desvalorizando a do parceiro como forma de encontrar um equilíbrio em seu relacionamento ou até mesmo como uma tentativa de se auto-reafirmar perante a superioridade que acredita existir do seu parceiro para consigo. Isto pode ser considerado uma emulação, ou seja, um sentimento que leva a igualar ou ultrapassar alguém em mérito, em saber, em trabalho, esta emulação focaliza a comparação entre as competências dos participantes do relacionamento (Greimas, 1993).
A auto-estima, como fenômeno psicológico, tem dois aspectos inter-relacionados: uma sensação de eficiência pessoal e uma sensação de valor pessoal (Brandem, 1982). Se o ciumento (a) não apresenta esta sensação de capacidade e adequação para a vida e para suas exigências, este estará demonstrando uma deficiência na auto-estima, levando-o (a) a acreditar que é inferior ao suposto rival ou até mesmo ao parceiro (a).
Neste sentido, o ciumento (a) é capaz de acreditar que a beleza da parceira (o) irá atrair outras pessoas e então desacredita do processo de vaidade a que ela se submete e parte então em trabalhar em prol do seu relaxamento e total abandono dos cuidados perante a sua pessoa. Para o ciumento (a), é como um certo descuido cultural, pois quanto menos ela se envolve com a sociedade em geral, maior será sua segurança em possuir algo que somente é seu, isto tudo devido ao grau de auto-estima no qual o ciumento (a) se encontra (Brandem, 1982).
Deve-se lembrar que, segundo Brandem (1982), a auto-estima existe numa continuidade: não quer dizer que um indivíduo a possua ou não. É uma questão de grau. É difícil imaginar um indivíduo inteiramente falto de qualquer vestígio de auto-estima. É igualmente difícil visualizar um indivíduo que não tenha qualquer vestígio de capacidade de desenvolver sua auto-estima.
Quando se trata de ciúme, pode-se compreender facilmente a tragédia de muitos relacionamentos ao se entender que a imensa maioria dos seres humanos sofre de alguma deficiência no sentimento de auto-estima. O ciumento (a) cria situações para se proteger, pois este sente uma grande dúvida a respeito de sua eficiência e capacidade.
O grau de dependência sócio-cultural-econômico também é um fator relevante para que o parceiro (a) seja submisso (a) e totalmente controlado (a) pelo ciumento (a), a ponto de levar o resto de sua vida sob controle daquele que detém o poder e o manipula estrategicamente fazendo com que deixe de viver em liberdade e se transforme escravo (a) de uma situação que nem se quer lhe permita dizer o que pensa a respeito. É uma tortura psicológica, uma repressão até mesmo nos pensamentos do parceiro (a), inibindo os seus atos e pensamentos de forma a deixá-lo (a) completamente apático (a) e atônico (a). Este deve estar sempre atento a tudo que fala, que vê, por onde anda, o que faz e com quem faz. A vigilância está a sua volta vinte e quatro horas por dia e sempre atenta a qualquer deslize de sua parte.
A maneira como o ciúme é visto tem variações importantes nas diferentes culturas e épocas. Assim, segundo Torres (1999), no século XIV a paixão estava relacionada com a necessidade de preservar algo importante, com devoção e zelo, diferente da possessão e desconfiança que se encontra nos dias atuais. Nas sociedades monogâmicas, o ciúme associava-se à honra e moral, sendo um instrumento de proteção da família, talvez até um imperativo biológico, uma adaptação evolutiva à questão da incerteza da paternidade.
No século XVII, Willian Shakespeare descreveu o desenrolar da cena em que o marido apaixonado desconfia que sua linda mulher o trai com seu amigo. Sua mulher é fiel e seu amigo sincero, mas Otelo, seu marido, só enxerga maldade e indícios de traição a sua volta. No intuito de amenizar seu sofrimento, o marido assassina a mulher e depois se mata. Foi assim que Willian Shakespeare escreveu a tragédia inglesa aonde Otelo assassinou Desdêmona como fruto do ciúme (Shakespeare, 1981).
Já no século XIX, o ciúme mudou de uma prerrogativa masculina para se tornar especialmente um problema das mulheres, não mais uma questão de honra ofendida, mas fraqueza e falta de controle. Associou-se, então o ciúme a insegurança e imaturidade, expressão de desajustamento psicológico e social, algo cada vez mais problemático e indesejável (Torres, 1999).
O ciúme acompanha a humanidade ao longo dos séculos; e o ciumento (a), na tentativa de amenizar este sentimento é seguido de devaneios e delírios por onde a pessoa passa a viver um mundo fantasioso cheio de obsessões e compulsões (Cavalcante, 1997). O ciumento (a) ouve telefonemas do parceiro (a), contrata detetives, executa rituais de verificação em bolsas, bolsos, abre correspondências, procura manchas no lençol, verifica roupas íntimas e segue o parceiro (a) às escondidas (Santos, 1998).
O ciumento (a) sabe que suas atitudes são aberrantes e mesmo não encontrando nada que comprove sua suspeita com relação ao parceiro (a), prossegue em seu sofrimento e conseqüentemente faz sofrer o seu cônjuge, pois nunca está satisfeito. Sua procura por evidências de infidelidade eleva o seu sofrimento e quando não as encontra provoca um estado de sofrimento ainda maior. Parece que a comprovação da sua suspeita seria um alívio para este sofrimento.
Sabe-se que o ciúme não é conseqüência dos dias atuais, parece que apenas ficou mais nítido devido ao fato da mulher ter deixado a passividade do seu estado submisso junto ao marido e assim proclamar a sua independência colocando-se em igualdade perante o homem num quadro evolucionista que muitos parecem não aceitar (Cavalcante, 1997).
A Psicologia evolucionista (Buss,2000) apud Ramos (2003) acredita que o ciúme pode ser visto como sexista onde foram moldados padrões diferentes para homens e mulheres, de forma que eles desenvolveram o ciúme como resposta à infidelidade sexual e elas contra a infidelidade emocional.
O fato da mulher buscar um outro homem, para ter satisfação sexual, seria um crime e uma afronta muito grave a todos esses valores. É o adultério. Fato concebido como uma ruptura, uma falta muito grave. O mesmo, curiosamente, não se sucede com o homem, que não é tão cobrado em questão da moral, não tendo que responder por este ato. Adultério grave, reprovável, é o cometido pela mulher. Para com o homem a situação é bem mais permissiva. (Cavalcante, 2000).
A honra do homem depende da mulher ao passo que a honra da mulher só depende dela mesma. A sociedade machista tenta preservar essa idéia; se há uma fuga ou uma insatisfação da mulher com relação ao homem, este muitas vezes substitui a parceira. Porém é muito provável que volte a repetir com a segunda mulher o mesmo ciúme que sentia pela primeira (Cavalcante, 2000).
Na visão de um entrevistado de C. Rogers (1984) a melhor maneira de não sentir ciúmes em um relacionamento é cada um viver a sua vida da maneira que melhor lhe convém, dentro dos padrões que eles acreditam ser o melhor, ou através de um contrato pré-estabelecido pelo casal permitindo que ocorra um relacionamento extraconjugal para ambos, onde o casal se policia nesta bigamia, não permitindo que esse novo relacionamento venha interferir na longevidade do relacionamento principal.
Boa parte dos homens ainda não assimilou e, portanto não aceitam a mudança cultural que fez a mulher deixar de ser um objeto de domínio como nos antepassados para ser agora o seu principal rival em todos os aspectos e que agora se igualam a eles.
Muitas pessoas fazem com que seu parceiro (a) se tornem muitas vezes dependentes delas, pois só assim poderá controlá-lo (a) o tempo todo fazendo com que se sinta incompetente e submisso (a) satisfazendo assim todos os seus caprichos, inclusive muitas vezes até aceitando a bigamia presente em seu relacionamento, temendo uma possível perda em todos os aspectos.
Apesar do ciúme destruir casamentos e relações duradouras, muitas vezes ajudam casais a se manterem juntos por muito mais tempo, despertados por um insight que os alerta sobre qualquer perigo que esteja por perto.
Buss (2001) apud Heise (2003) descobriu que alguns sinais de ciúme servem como interpretações precisas de atos de amor; como por exemplo, quando um homem aparece de repente, para ver o que sua companheira está fazendo, revela um modo discreto de vigiar, que serve para preservar sua exclusividade e também para comunicar seu amor, tem-se também as ocasiões aonde ao perder o sono pensando sobre seu companheiro e imaginando que ele possa estar com outra pessoa, uma mulher está vivenciando a profundidade do seu amor e a intensidade do seu ciúme. E descobriu também que o ciúme surge primeiro como defesa e proteção do sentimento, mas pode se transformar em violência nas situações extremas.
Cavalcante (2000) comenta a respeito de crimes do amor destacando alguns aspectos de origem social e cultural. Dentre eles, destaca dois aspectos ao estudar a violência que pode surgir entre os membros do casal como conseqüência do ciúme: que o homem quando pratica o crime contra a mulher, o faz em defesa da honra ao passo que a mulher quando o faz, é em defesa própria. A relação entre ciúme e violência ocorre quando o ciumento (a) chega a um estado de ciúme extremo.
Assis (1997) retrata a intensidade do ciúme causado pela mulher “Capitu” ao marido “Bentinho” quando de sua dúvida a respeito de sua infidelidade com o amigo “Escobar”. Frente à situação intolerável e insuportável, Bentinho pensa em eliminar seu filho que possuía traços do amigo e depois pensa em suicídio.
Se a situação do conflito é muitas vezes incontrolável e esmagadora para a maioria dos indivíduos que a experimenta e que sequer imagina o que se passam com eles, o que dizer então de uma pessoa completamente experiente e responsável pela terapia de outrem e que vive situação semelhante! Foi assim que Santos (1998) narrou fato a respeito de um psicoterapêuta experiente que viveu a situação cruel do ciúme quando introjetou em si a imagem de um “rival”, antigo namorado de sua esposa, cuja pessoa não havia conhecido, apenas o imaginava e que quando o conheceu percebeu que a figura física do rival não era superior a sua, o que consideravelmente elevou sua auto-estima.
Tentar controlar o ciúme não é uma tarefa muito fácil. Ao considerar a amplitude desta pesquisa, se pode perceber, com base em teorias aqui apresentadas e discutidas por renomados autores (Cavalcante, Rogers, Greimas, entre outros) que são inúmeros os aspectos a serem discutidos acerca do que seria viável para que se encontre um equilíbrio ou um ponto ponderado à este sentimento causador de tanto incomodo e desconforto. Acredita-se que todos estes aspectos podem se resumir em simplesmente respeitar o espaço do outro o deixando liberto a pensar e agir da maneira que melhor lhe convém, pois existe em cada um, a expectativa de viver o êxtase se ser um ser “vivo”, pensante e livre de qualquer controle, quer seja físico ou psicológico. Um relacionamento deve ser passível de ser considerado um estado de liberdade e não uma prisão do corpo e da alma.

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